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    Estruturação de operações financeiras: a engenharia por trás das transações que o mercado não vê

    Lucie DelvernPor Lucie Delvern26/06/2026
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    Felipe Rassi
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    Para Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, a estruturação de uma operação financeira é muito mais do que a escolha do veículo jurídico adequado ou a definição das garantias exigidas: é a disciplina que determina se uma oportunidade concreta se transforma em resultado ou em frustração. 

    Em 2026, com o mercado de crédito corporativo brasileiro operando em nível crescente de sofisticação, operações com fundamentos sólidos continuam fracassando por falhas de estruturação, escolhas inadequadas de instrumento ou garantias que não correspondem ao perfil de risco envolvido. A arquitetura da operação, invisível para quem observa apenas o resultado final, é o que separa as transações que entregam o retorno projetado daquelas que surpreendem negativamente os investidores.

    Os pilares que sustentam uma estrutura financeira bem construída

    Estruturar uma operação financeira é, antes de tudo, um exercício de compatibilidade: entre o perfil do ativo e o veículo escolhido, entre o prazo da operação e o horizonte dos investidores, entre o nível de risco envolvido e as garantias constituídas para mitigá-lo. Quando esses elementos estão alinhados, a operação tem condições de absorver imprevistos sem colapsar. Quando não estão, qualquer variação relevante nas condições de mercado ou no comportamento do devedor é suficiente para comprometer o resultado.

    Conforme indica Felipe Rassi, os erros de estruturação mais frequentes no mercado brasileiro não decorrem de desconhecimento dos instrumentos disponíveis, mas de uma tendência a replicar estruturas que funcionaram em operações anteriores sem verificar se as condições do novo ativo justificam o mesmo arranjo. Cada operação tem especificidades que precisam ser endereçadas de forma própria, e a tentação de padronizar estruturas em nome da eficiência operacional cobra um preço alto quando as particularidades ignoradas se manifestam durante a vida da operação.

    Veículos e instrumentos: a escolha que condiciona tudo o mais

    O mercado brasileiro oferece uma gama relevante de veículos para a estruturação de operações financeiras corporativas. Os FIDCs permitem a securitização de carteiras de recebíveis com segregação patrimonial e tratamento tributário específico. As debêntures, simples ou conversíveis, oferecem flexibilidade na definição de remuneração e na relação entre credor e devedor. As Notas Comerciais atendem a operações de prazo mais curto com estrutura contratual mais ágil. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio viabilizam captações lastreadas em ativos específicos com benefícios fiscais para o investidor pessoa física.

    Felipe Rassi
    Felipe Rassi

    Na leitura de Felipe Rassi, a escolha do veículo adequado precisa considerar simultaneamente a natureza do ativo, o perfil dos investidores-alvo, o tratamento regulatório aplicável e os custos de estruturação e manutenção da operação ao longo do tempo. Uma estrutura tecnicamente correta, mas cara demais para o tamanho da operação, compromete o retorno líquido do investidor tanto quanto uma estrutura inadequada ao perfil do ativo. A eficiência da estruturação se mede, em última análise, pela relação entre o custo de montar e manter a operação e o valor que ela efetivamente entrega.

    Garantias e mitigadores de risco: onde a estrutura encontra a realidade

    A constituição de garantias adequadas é um dos elementos mais críticos da estruturação de operações financeiras e, simultaneamente, um dos mais frequentemente subestimados. Uma garantia bem constituída não é apenas aquela que existe formalmente: é aquela que pode ser executada dentro de um prazo e a um custo que preservem o sentido econômico da operação para o credor.

    Como pondera Felipe Rassi, a análise de garantias precisa contemplar não apenas o valor atual do bem ou direito oferecido, mas sua liquidez em um cenário de estresse, a prioridade do credor em relação a outros detentores de direitos sobre o mesmo ativo e a robustez jurídica dos instrumentos de constituição utilizados. Garantias reais bem avaliadas, combinadas com mitigadores contratuais como covenants financeiros e gatilhos de aceleração, formam uma estrutura de proteção que reduz significativamente a assimetria de risco entre credor e devedor sem inviabilizar a operação para nenhuma das partes.

    Estruturação em ambientes de estresse: quando a complexidade aumenta

    Operações estruturadas em contextos de reestruturação financeira ou de aquisição de ativos estressados apresentam camadas adicionais de complexidade que exigem atenção redobrada. A existência de múltiplos credores com preferências distintas, a presença de passivos contingentes não mapeados, a necessidade de coordenar interesses divergentes entre sócios e financiadores e a incerteza sobre o comportamento do ativo durante o processo de recuperação tornam a estruturação nesses ambientes um exercício de precisão técnica e de gestão de conflitos simultaneamente.

    De acordo com Felipe Rassi, as operações mais bem-sucedidas em ambientes de estresse compartilham uma característica que vai além da qualidade técnica da estrutura: a capacidade de antecipar cenários adversos e incorporar mecanismos de ajuste que permitam à operação se adaptar sem precisar ser inteiramente refeita. Estruturas rígidas quebram sob pressão. Estruturas bem desenhadas dobram, absorvem o impacto e preservam o valor para todas as partes envolvidas. Essa é, em essência, a diferença entre estruturar com excelência e simplesmente estruturar.

    Autor: Diego Rodríguez Velázquez

     

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