Relatórios internacionais apontam que eventos climáticos extremos devem gerar quase US$ 900 bilhões em perdas globais, com efeitos diretos sobre a economia brasileira.
Quanto custa, na prática, o aquecimento do planeta? Essa pergunta ganhou respostas mais concretas nas últimas semanas, depois que organizações internacionais divulgaram números que ligam diretamente eventos climáticos extremos a perdas bilionárias na economia mundial. Levantamentos recentes mostram que enchentes, ciclones e chuvas intensas já provocam prejuízos reais a empresas e governos, e a tendência é de agravamento nos próximos anos. O Fórum Econômico Mundial reforça o alerta ao projetar o clima extremo como o maior risco global já em 2036. No Brasil, o impacto também é mensurável: episódios como as enchentes no Rio Grande do Sul e as secas na Amazônia já retiram bilhões de reais do PIB nacional todos os anos. Entender esses números ajuda a explicar por que governos, bancos centrais e empresas passaram a tratar o clima como uma questão econômica, não apenas ambiental.
Quanto as empresas já perdem com o clima extremo
Um estudo da CDP, sistema independente de divulgação ambiental, analisou mais de 11 mil empresas que reportaram dados ambientais em 2025 e chegou a um resultado revelador: eventos climáticos extremos já provocam impactos financeiros materiais em toda a economia global, com riscos que devem se intensificar rapidamente. Ainda assim, apenas 35% das companhias identificaram esses eventos como um risco financeiro relevante, mesmo registrando juntas quase US$ 3 bilhões em perdas reais somente em 2025, puxadas principalmente por custos diretos e paralisações operacionais. As chuvas intensas isoladamente responderam por boa parte desse prejuízo. CDPCDP
O retrato piora quando se olha para frente. As próprias empresas projetam quase US$ 898 bilhões em impactos financeiros futuros, principalmente devido a inundações, ciclones e chuvas intensas, com quase metade desses riscos com chance de se materializar já nos próximos dois anos. O dado mais curioso da pesquisa, porém, é econômico: prevenir custa muito menos do que remediar. Segundo o relatório, o custo médio dos riscos climáticos por empresa foi de US$ 39,4 milhões, contra apenas US$ 3,1 milhões para mitigá-los, uma diferença de quase 13 vezes. Revistaecotour + 2
O alerta dos governos e o novo ranking de riscos globais
A preocupação não fica restrita ao setor privado. O Relatório de Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, elevou de forma expressiva a posição do clima extremo entre as maiores ameaças ao planeta. De acordo com o documento, eventos como ondas de calor, enchentes, secas prolongadas e tempestades severas devem saltar da quarta posição prevista para 2028 e assumir o primeiro lugar entre os riscos globais já em 2036. O estudo reúne a percepção de economistas, cientistas do clima e formuladores de políticas públicas de diferentes países, o que dá peso a um alerta que, até pouco tempo, parecia distante. Tempo
Governos locais já sentem esse impacto no dia a dia. Levantamento da CDP com cidades, estados e regiões de 80 países mostrou que 62% delas afirmam já estar sendo significativamente impactadas por eventos climáticos extremos, principalmente por calor extremo, enchentes urbanas e secas. O problema é que quase metade desses governos relata restrições orçamentárias que limitam a capacidade de se adaptar, o que abre uma lacuna global de investimento estimada em bilhões de dólares e deixa populações inteiras mais expostas a desastres que, segundo os próprios especialistas, vão se repetir com mais frequência. Revistaecotour
O que esse cenário significa para o Brasil
O país já sente esse custo no bolso. Estudos sobre o clima no Brasil indicam que eventos extremos já geram perdas de cerca de R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro, valor que pode chegar a R$ 145 bilhões por ano se o aquecimento global ultrapassar 2°C. O exemplo mais lembrado é o das enchentes no Rio Grande do Sul, que deixaram mais de 600 mil pessoas desalojadas e mais de 180 mortos. A seca na bacia amazônica, em curso desde 2023, é outro caso citado por especialistas como efeito direto das mudanças climáticas, com rios no nível mais baixo em mais de cem anos e milhões de pessoas afetadas na região. PaineldemudancasclimaticasPaineldemudancasclimaticas
Esses números têm consequências práticas para quem vive no Brasil. Setores como agronegócio, seguros e infraestrutura urbana já incorporam o risco climático em seus planejamentos, e o Banco Central e outros reguladores vêm adotando ferramentas de supervisão voltadas justamente para riscos físicos não segurados. Com o país tendo sediado a COP30 e se posicionando como referência em pauta ambiental, o desafio agora passa por transformar discurso em planejamento concreto, especialmente em um ano de eleições em que a agenda climática volta a dividir opiniões.
Os números deste levantamento mostram que o clima deixou de ser apenas um tema de debate ambiental e passou a ocupar um espaço central nas decisões econômicas, tanto de empresas quanto de governos. Para o brasileiro, isso se traduz em estradas mais vulneráveis, safras mais imprevisíveis e contas de seguro mais caras nas regiões de maior risco. Acompanhar esses relatórios deixou de ser tarefa só de especialistas: hoje, eles ajudam a explicar parte da inflação de alimentos, do custo de reconstrução após desastres e das prioridades de investimento público nos próximos anos.
Fontes consultadas:
- https://www.cdp.net/pt/press-releases/extreme-weather-risk-is-reshaping-the-global-economy
- https://www.tempo.com/noticias/actualidade/eventos-climaticos-extremos-assumem-o-topo-dos-riscos-globais-em-2036-segundo-o-forum-economico-mundial.html
- https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/eventos-climaticos-extremos
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

